Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

8/28/20262 min read

Terminei recentemente Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, e é bom pra cacete. A história acompanha Rick Deckard, um caçador de recompensas encarregado de localizar androides fugitivos em uma Terra devastada por uma guerra nuclear, onde os animais praticamente desapareceram e possuir um animal verdadeiro virou símbolo de status. Mas, por trás dessa premissa aparentemente simples, Dick está o tempo todo perguntando o que realmente nos torna humanos — e se a empatia é suficiente para responder à pergunta.

Achei o livro curto, mas muito bom e surpreendentemente interessante. Philip K. Dick entrou rapidamente na minha lista de autores favoritos de ficção científica, principalmente porque percebi nele uma abertura para o metafísico que não encontro da mesma maneira em algumas das minhas referências anteriores, como Isaac Asimov e Shinichiro Watanabe (Tá, Cowboy Bebop tem o "Grande Espírito" dos indígenas, mas ainda é superficial). O Mercerismo e a famosa caixa de empatia são talvez os melhores exemplos disso: em um mundo tecnologicamente avançado, as pessoas precisam de máquinas para sentir, compartilhar sofrimento e buscar alguma espécie de transcendência. É uma ideia estranha, melancólica e, ao mesmo tempo, fascinante.

E o próprio Dick parece ter sido uma figura quase saída de um de seus livros. Sua vida foi marcada por drogas, relacionamentos conturbados, paranoia, desconfiança das autoridades e experiências que ele interpretava como possíveis visões ou contatos cósmicos (?!). Nos últimos anos, suas inquietações espirituais e filosóficas ficaram ainda mais fortes, especialmente no livro VALIS (que está na minha lista), nos quais realidade, religião, ficção e experiência pessoal começam a se misturar de maneira quase impossível de separar. Talvez seja justamente isso que torne sua ficção tão peculiar: Dick não parece muito interessado em imaginar apenas como será o futuro, mas ele não abandona o conceito que sempre haverá mistério sobrenatural e além da nossa compreensão.

E aí vem a grande surpresa para quem conhece primeiro Blade Runner: o filme de Ridley Scott é muito mais uma releitura do que uma simples adaptação. No livro, Deckard é casado, vive obcecado por comprar um animal verdadeiro, e elementos fundamentais como Mercerismo, caixa de empatia e o órgão de controle de humor foram completamente deixados de fora do filme. Além disso, os androides de Dick são muito mais frios e incapazes de empatia, enquanto o Roy Batty de Rutger Hauer ganhou no cinema uma dimensão trágica e quase heroica que não existe da mesma forma no romance.

Blade Runner e Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? são duas histórias excelentes, mas diferentes.