Condessa Vampira e um Edital Difícil

7/18/20262 min read

Escrever "Crepúsculo no Mausoléu Demidoff" foi uma experiência curiosa, porque a ideia inicial parecia simples: um influenciador digital aceita o desafio viral de passar a noite no mausoléu da condessa Elisabeth Demidoff em busca do lendário tesouro escondido. Só que, como sempre acontece comigo, a história resolveu ganhar vida própria. Em vez de escrever um conto de vampiro tradicional para o edital "O Testamento da Vampira de Paris", da Cartola Editora, acabei mergulhando num castelo impossível, corredores infinitos, geometrias que desafiam a lógica e um crepúsculo eterno que, definitivamente, nunca fez parte da paisagem de Paris.

O mais divertido foi o processo de construção. A história passou por inúmeras versões, algumas com finais completamente diferentes, outras com monstros mais explícitos, outras muito mais psicológicas. Discutimos o papel da condessa, o momento em que ela deveria aparecer, a função do tesouro, a presença dos espaços liminares e até o formato do sorriso da fotografia encontrada no mausoléu. Em vários momentos, um simples parágrafo gerou uma conversa enorme sobre ritmo, atmosfera ou coerência narrativa. Houve dias em que uma única frase mudou três ou quatro vezes até encontrar o tom certo. É engraçado perceber que, às vezes, o leitor imagina que um conto nasce inteiro, quando, na verdade, ele costuma ser montado como um quebra-cabeça cheio de pequenas decisões.

Também foi interessante perceber como o texto acabou se afastando dos clichês. A ideia deixou de ser apenas "encontrar um vampiro" e passou a girar em torno do desconforto provocado por um lugar que simplesmente não deveria existir. O castelo tornou-se um personagem, enquanto o tesouro ganhou um significado muito mais inquietante do que um simples monte de ouro. No fim, a própria condessa deixou de ser apenas uma criatura monstruosa e passou a parecer a guardiã de um espaço que aprisiona todos os que cedem à tentação da fortuna.

Apesar de toda essa dedicação, confesso que ainda não estou muito confiante. Já participei de outros concursos da Cartola Editora e, até hoje, nunca consegui emplacar um conto por lá. Faz parte do caminho de quem escreve: às vezes o texto encontra seu leitor, às vezes não. Ainda assim, terminar esta história me deixou com a sensação de que aprendi alguma coisa em cada revisão, em cada dúvida e em cada mudança de rumo. Agora é torcer para que, desta vez, o conto encontre a porta certa.