Marés Vermelhas e Peitos Maciços

7/2/20262 min read

Escrever fantasia é sempre uma experiência curiosa. A gente começa querendo contar uma história sobre um marinheiro perdido e, algumas horas depois, está debatendo seriamente se uma rainha sereia deveria ou não ter "seios maciços". Sim, esse foi um dos debates mais importantes da revisão do meu conto. A conclusão? Ficou. Afinal, a Iara do meu universo não é apenas uma soberana; ela também representa aquele arquétipo da beleza irresistível que sempre fez parte das lendas brasileiras. Se vai seduzir marinheiros há séculos, convém que tenha presença.

O conto nasceu por causa de um edital da Chacal Edições sobre sereias sombrias. Em vez de inventar um universo novo, resolvi revisitar Arrhênia, o mesmo mundo de Jornada ao Presságio Vermelho (que, se Deus quiser, terá sua continuação "As Fronteiras das Terras Sombrias" publicada). Quem já conhece vai encontrar personagens familiares, especialmente Laura e as Filhas d'Água. Quem nunca leu nada, por outro lado, consegue acompanhar a história do começo ao fim sem precisar consultar um mapa, uma cronologia ou uma enciclopédia.

A ideia que mais me animou foi inverter completamente o ponto de vista. Normalmente, quando pensamos em julgamento, imaginamos justiça, direito de defesa e testemunhas. No tribunal das Filhas d'Água, nada disso existe para um humano. Laura até tenta salvar o marinheiro, mas sua função não é provar inocência; é apenas implorar por misericórdia. O mais assustador é que ninguém ali se considera malvado. Elas simplesmente acreditam que humanos são uma espécie inferior. Acho que esse detalhe acabou causando muito mais desconforto do que qualquer monstro gigante escondido nas profundezas do rio (mas ele está lá também hahaha).

E falando em monstros, também tive uma divertida discussão editorial sobre o final. O conto caminhava por um horror mais psicológico, sugerindo o Abismo sem explicá-lo totalmente, até chegar a uma cena bastante gráfica. Um dúvida apareceu: "Será que esse splatter combina com o resto da narrativa?" Depois de pensar bastante, decidi mantê-lo. Minha teoria é simples: se você passa cinco páginas aumentando a tensão, tem o direito de colocar uma pimenta mais forte na última mordida.

Agora o conto está naquele estágio que todo escritor conhece: teoricamente pronto, mas com aquela voz inconveniente repetindo "acho que dá para revisar mais uma vez". Talvez dê mesmo. Talvez eu revise outras vinte. Enquanto isso, continuo feliz por ter voltado a Arrhênia, reencontrado Laura e descoberto que escrever fantasia também significa discutir burocracia sobrenatural, tribunais de sereias, horror cósmico e... seios maciços. Honestamente, eu não esperava que esse fosse o caminho quando comecei a escrever.