O Americanismo e a Conjuração Anticristã, de Henri Delassus
3/16/20262 min read


Quando terminei de ler O Americanismo e a Conjuração Anticristã, de Henri Delassus, publicado originalmente no início do século XX, fiquei impressionado com o alcance histórico e espiritual que o autor tenta dar à obra. Esta versão da Editora Resistência Cultural está particularmente bonita, com a capa sombria, mas um acabamento excelente. Palmas para a tradução e notas do professor Eduardo Cruz.
Dom Delassus foi um sacerdote francês profundamente envolvido nos debates intelectuais e religiosos de seu tempo, especialmente na defesa da tradição católica diante das transformações políticas e culturais que estavam remodelando o mundo ocidental. No livro, ele propõe algo ambicioso: investigar o que chama de “americanismo”, não apenas como um fenômeno cultural dos Estados Unidos, mas como uma corrente ideológica que, segundo ele, estaria ligada a um projeto mais amplo de transformação da civilização cristã.
A França do final do século XIX e início do XX vivia um período de fortes tensões entre Igreja e Estado, marcado por leis anticlericais, pela crescente influência do secularismo e por debates intensos sobre o papel da religião na vida pública. Pouco depois da virada do século, viria inclusive a famosa lei de separação entre Igreja e Estado de 1905. É nesse ambiente turbulento que Delassus escreve sua análise, tentando interpretar as mudanças do mundo moderno a partir de uma lente profundamente católica e contrarrevolucionária. O resultado é uma obra densa, polêmica e, ao mesmo tempo, um retrato muito revelador das inquietações religiosas e políticas daquela época.
Esta é uma obra obrigatória para aqueles que se definem politicamente como conservadores tradicionalistas ou reacionários. As acusações de Delassus recaem particularmente sobre dois grupos polêmicos, judeus e maçons, mas sua crítica ao movimento liberal americano é bem mais abrangente.
Achei muito interessante e estimulante a relação que ele faz entre o afastamento entre Estado e Igreja e o aumento gradativo da devassidão na sociedade. Como católico, é bastante melancólico perceber essa apreensão que os padres dos séculos passados tinham diante do avanço das ideologias modernas e materialistas.
Por outro lado, não concordo com o seu diagnóstico geral. Para ele, a humanidade, ou pelo menos o Ocidente, cairia em uma espécie de “neojudaísmo para pagãos”. Ele, porém, não conseguiu prever o avanço do islamismo na Europa, o surgimento das igrejas neopentecostais no Brasil ou o aparecimento de religiões políticas (apesar de quê, estas últimas, estão mais próximas de suas previsões). As semelhanças entre o messias judaico e o Anticristo são particularmente inquietantes.
No fim das contas, ler Delassus hoje é uma experiência que realmente tira o leitor da zona de conforto. Mais do que concordar ou discordar de cada ponto, o livro obriga a repensar a relação entre política, religião e até mesmo as bases metafísicas que sustentam a civilização ocidental. É uma leitura que incomoda, provoca e levanta questões difíceis sobre o destino espiritual das sociedades modernas. Talvez por isso continue sendo uma obra tão interessante: não apenas como documento histórico, mas como um convite a refletir com mais profundidade sobre forças que, muitas vezes, preferimos fingir que não existem.