O Apologeta e o Dungeon Master
3/27/20261 min read


Escreva aqui o conteúdo do postFaz algumas semanas que venho tentando trabalhar num conto para a antologia Vão das Almas, da editora Coletivo Aspas Duplas. Porém, esse já é o terceiro conto que começo, o que por si só já diz bastante sobre o momento. Em algum ponto no meio disso tudo, acabei entrando numa pequena crise moral: comecei a me questionar se o que eu estava escrevendo era “católico o suficiente”. E aí veio o efeito colateral clássico — textos excessivamente apologéticos, pesados, quase mais preocupados em provar algo do que em contar uma história.
Foi nesse impasse que precisei recalibrar. Eu não queria escrever um tratado disfarçado de conto, mas também não queria abrir mão da minha fé. Puxei o freio de mão no apolegeta e soltei um pouco mais o dungeon master.
O conto que surgiu disso se apoia muito mais no sensorial e no simbólico. A procissão do Senhor Morto, por exemplo, deixou de ser apenas um elemento religioso explícito e passou a funcionar como eixo de tensão e estranhamento. O foco não está em explicar o que aquilo significa, mas em como aquilo é experimentado pelas personagens.
Ainda acho que preciso ajustar o tom com que trato essa procissão. Existe uma linha muito delicada entre respeito, mistério e intensidade estética, e sinto que ainda estou calibrando isso. Mas, pela primeira vez nesses três começos, tenho a sensação de que encontrei uma direção que funciona tanto para mim quanto para um público mais amplo.
Agora é lapidar. Cortar excessos, ajustar ritmo, afinar a linguagem. Nos próximos dias, vou trabalhar nesse refinamento com mais calma e ver no que isso dá. Dessa vez, pelo menos, parece que o conto finalmente quer nascer.