O Último Goitacá
7/17/20262 min read


Antes de qualquer coisa, preciso dizer que esse conto me deu aquela sensação de que a ideia inicial era um blefe do meu cérebro. Ela parece maravilhosa às duas da manhã, você se apaixona por ela durante o café da manhã e, no terceiro dia, descobre que ela simplesmente não funciona. Foi exatamente o que aconteceu aqui. A conversa começou em torno de um edital para uma antologia de criaturas do imaginário brasileiro. A primeira ideia envolvia um investigador da Marinha do Brasil perseguindo um criminoso conhecido como Curupira, uma espécie de eco moderno da lenda. Parecia promissora, ganhou várias possibilidades e até um bom conflito, mas havia algo errado: o coração da história nunca aparecia. Então fizemos aquilo que dói em qualquer processo criativo. Jogamos tudo fora.
A segunda ideia nasceu quase por acaso: "E se Peri, de O Guarani, fosse uma dessas lendas vivas, como o Saci ou o Curupira?". A partir daí o conto praticamente encontrou seu próprio caminho. Surgiu Cecília, a bibliotecária que parecia ter saído diretamente do Romantismo, incapaz de se interessar por redes sociais, memes ou pela correria do século XXI. Depois veio Henrique, o jornalista que começa investigando um roubo de manuscritos e termina investigando a própria realidade. O engraçado é que, durante semanas, nossas discussões deixaram de ser sobre "o que acontece" e passaram a ser sobre "como esconder". A maior preocupação era fazer o leitor acreditar que Cecília era apenas uma mulher excêntrica, para que o momento em que ela dissesse "Meu nome é Cecília de Mariz" realmente provocasse aquele silêncio delicioso de quem fecha o livro e pensa: "Espera... então ela nunca mentiu."
O processo de revisão foi quase uma investigação policial. A cada nova versão surgiam perguntas incômodas: Henrique chegou ao casarão por mérito ou por conveniência do roteiro? Loredano parecia um banqueiro ou um vilão de desenho animado? Peri deveria falar muito ou quase nada? Descobrimos que escrever é muito menos acrescentar do que cortar. Sumiram discursos inteiros, ligações anônimas desapareceram, descrições foram enxugadas e cenas inteiras mudaram de ordem. Em compensação, algumas pequenas ideias sobreviveram a todas as revisões: a frase "É o diálogo intersecular perfeito", a resposta "Vossa Mercê", a entrada cinematográfica de Peri dizendo apenas "Ceci" e a decisão de transformar o banqueiro em alguém que destrói livros não por dinheiro, mas porque acredita que um povo sem memória aceita qualquer futuro que lhe imponham.
No fim das contas, talvez essa tenha sido a maior surpresa de todo o processo. O conto começou como uma tentativa de escrever sobre um personagem de José de Alencar e terminou se tornando uma história sobre memória. Não apenas a memória dos livros, mas a de um país inteiro. Se Peri e Ceci ainda caminham pela Floresta da Tijuca, isso pouco importa. O que realmente importa é que eles continuam vivos sempre que alguém abre O Guarani.
Espero ser aceitono edital! Vamos torcer!!