Um Novo Conto de Bradão
7/19/20261 min read


Já escrevi várias histórias com meu personagem charrua. Mas, talvez, seja a primeira vez que ele será oficilamente publicado.
Quando vi o edital da antologia PRIMITIVO, a primeira ideia que me veio à cabeça foi escrever uma aventura de Bradão contra alguma criatura do folclore brasileiro. Bastaram alguns minutos de conversa para perceber que isso seria apenas "mais um conto". Aos poucos, as discussões foram mudando de rumo. Em vez de um monstro para ser derrotado, surgiu uma floresta onde o silêncio era a verdadeira ameaça, uma aldeia cujos habitantes pareciam humanos, mas nunca piscavam os olhos, e uma entidade tão antiga que nem sequer podia ser descrita. Foi aí que o conto começou a ganhar personalidade.
Curiosamente a história escrita em camadas. Primeiro veio a estrutura geral. Depois, vieram as dezenas de pequenas revisões: o diálogo do velho pajé, os lambaris imóveis no riacho, a espada europeia de Bradão, as pinturas rupestres, o espaço limiar dentro da montanha e, por fim, aquele desfecho inquietante da cabeça do ancião. Em vários momentos, parecia que estávamos lapidando um quebra-cabeça, retirando explicações excessivas, substituindo frases, mudando a ordem das cenas e discutindo por longos trechos se determinado detalhe aumentava ou diminuía a sensação de estranhamento.
Talvez a maior dificuldade tenha sido justamente resistir à tentação de explicar demais. Sempre que um mistério surgia, aparecia também a vontade de respondê-lo. Quem era a criatura? O que exatamente fazia com a aldeia? Por que imitava pessoas? Em vez de transformar o horror em exposição, preferimos deixar que o leitor montasse suas próprias respostas. Até Bradão seguiu esse princípio: ele não tenta compreender o incompreensível. Faz aquilo que sabe fazer desde sempre. Puxa a espada e procura uma cabeça para cortar. Essa simplicidade acabou funcionando como um excelente contraste para um horror completamente alienígena.