Uma vampira cyberpunk cai numa capela

3/20/20262 min read

Recentemente eu terminei mais um conto. Ele se chama O Salto de Flannery, e foi o texto que enviei para o edital “Ascensão do Sangue”, da Medusa Editorial — uma editora que vem se destacando bastante no cenário nacional por apostar em fantasia sombria, horror e narrativas mais ousadas, sem medo de misturar gêneros e temas mais densos.

Relendo o conto com um pouco mais de distância, eu percebi algumas coisas que me deixaram genuinamente satisfeito com o resultado. A primeira delas é o impacto da abertura. Começar com “— Não tem cura.” já joga o leitor direto no conflito, sem preparação, sem enrolação. A cena da clínica é violenta, desconfortável e já estabelece o tom do mundo: um cyberpunk decadente onde ciência e monstruosidade coexistem, mas não se explicam completamente. Isso fica ainda mais forte quando o vampirismo deixa de ser tratado como doença e passa a assumir um peso quase metafísico.

Outro ponto que funciona muito bem é a quebra de expectativa no confronto com o clã. A princípio, você acha que a história vai girar em torno de intrigas entre vampiros, mas então surgem os Lycans — e a hierarquia do mundo vira de cabeça para baixo. Aquela sensação de “os monstros também têm predadores” entra com força, e isso dá uma camada de horror muito interessante para o conto.

E o coração da história está mesmo na capela. É ali que tudo muda de tom. A ambientação segura, silenciosa, quase fora do mundo, contrasta com a brutalidade de fora. Ali dentro, Flannery não consegue se regenerar. Ou seja, o lugar que a protege também a enfraquece. Ou será que ela se regenera, mas não do jeito que ela imagina?

Tem um diálogo com a freira que também é bem legal. Não é um sermão, não é uma conversão forçada, tentei manter como um pequeno duelo lógico. Coisa de engenheiro. E isso funciona muito bem, porque como o leitor estará neste momento se identificando com a vampira, isso respeita a inteligência da personagem. Ela diz “Tomara que você tenha razão” remete que ela chegou num limite onde não consegue mais negar completamente o que ouviu.

Se Deus quiser, o texto semeará essa dúvida em mais corações.

No fim das contas, O Salto de Flannery é um conto sobre maldição, sim — mas também sobre limite, escolha e essa coisa incômoda que é perceber que talvez exista algo além do que a gente consegue controlar. Um início de redenção para a personagem, para o leitor e, quem sabe, para o autor.